De Iraque e Afeganistão à Líbia e Síria, ações militares americanas nas últimas décadas derrubaram regimes e enfraqueceram grupos rivais, mas não conseguiram garantir estabilidade política duradoura na região

Os Estados Unidos voltaram ao centro de mais um conflito no Oriente Médio, reacendendo o debate sobre o impacto das intervenções militares americanas na região e no norte da África ao longo das últimas décadas. A nova ofensiva contra o Irã recoloca em evidência um histórico marcado por ações militares que derrubaram governos, enfraqueceram adversários estratégicos e alteraram o equilíbrio regional, mas que, em muitos casos, tiveram como consequência guerras civis, fragmentação institucional e instabilidade prolongada.
O atual episódio se soma a uma longa sequência de intervenções conduzidas por Washington desde o fim da Guerra Fria. Presidentes como George Bush, George W. Bush e Barack Obama deixaram marcas profundas em países como Iraque, Afeganistão, Líbia e Síria. Em comum, essas operações foram justificadas por razões de segurança internacional, combate ao terrorismo, defesa da ordem global ou proteção de civis. Na prática, porém, os resultados seguem sendo alvo de duras críticas por parte de especialistas e analistas internacionais.
Em 2015, o diplomata Philip Gordon, que atuou como assessor de segurança no governo Obama, resumiu de forma contundente os dilemas dessas ações. Segundo ele, no Iraque os Estados Unidos intervieram e ocuparam o país, e o resultado foi um desastre caro; na Líbia, intervieram sem ocupar, e o resultado também foi um desastre caro; na Síria, não intervieram diretamente para derrubar o regime, e o cenário igualmente se transformou em um desastre caro. A frase passou a sintetizar a complexidade e os limites da política externa americana na região.
Para Ibrahim Awad, professor de Assuntos Globais da Universidade Americana do Cairo, no Egito, a instabilidade que marca o Oriente Médio e o norte da África está fortemente ligada às intervenções externas. Na avaliação do especialista, embora países como Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria e Iêmen já enfrentassem regimes autoritários, crises internas e sérios problemas de governança, essas fragilidades não poderiam ser solucionadas por meio de ações militares estrangeiras.
O caso do Iraque é um dos mais emblemáticos. Em 1990, após a invasão do Kuwait pelo regime de Saddam Hussein, os Estados Unidos lideraram uma coalizão internacional respaldada pela Organização das Nações Unidas para expulsar as forças iraquianas. A chamada Operação Tempestade no Deserto foi um sucesso militar rápido e decisivo. O Kuwait foi libertado em poucas semanas, e a ação foi vista como uma reafirmação do direito internacional em um cenário global transformado pelo fim da Guerra Fria.
Apesar disso, Saddam Hussein permaneceu no poder, e o Iraque entrou em uma nova fase de sanções, isolamento e agravamento das tensões internas. O país passou a conviver com maior instabilidade política e social, além do aprofundamento de divisões sectárias.
Treze anos depois, em 2003, os Estados Unidos voltaram a invadir o Iraque, desta vez ao lado do Reino Unido, sob a alegação de que o regime iraquiano possuía armas de destruição em massa e mantinha vínculos com o terrorismo internacional. As armas nunca foram encontradas. A ocupação derrubou Saddam Hussein em poucas semanas, mas abriu caminho para uma espiral de violência que mergulhou o país em uma profunda crise.
A ausência de um plano consistente para o pós-guerra, somada a decisões consideradas estratégicas desastrosas, como o desmantelamento do Exército e das forças de segurança iraquianas, contribuiu para o colapso da ordem interna. Milhares de homens armados ficaram sem função e muitos acabaram engrossando fileiras insurgentes. O cenário favoreceu o crescimento de disputas entre sunitas, xiitas e curdos, além do surgimento de grupos extremistas.
Foi nesse ambiente que o autoproclamado Estado Islâmico ganhou força e, entre 2014 e 2015, chegou a controlar cerca de um terço do território iraquiano e metade da Síria. Segundo o projeto Iraq Body Count, ao menos 300 mil pessoas morreram no Iraque desde 2003, entre civis e combatentes, como consequência direta da violência. Outras organizações apontam números ainda mais elevados.
Na avaliação de Awad, a intervenção americana fragmentou o Iraque em linhas comunitárias, enfraqueceu a possibilidade de construção de um sistema político democrático, moderno e laico e lançou o país em uma guerra civil que custou centenas de milhares de vidas, além de favorecer o surgimento de organizações extremistas como o Estado Islâmico.
Na Líbia, o roteiro teve semelhanças. Em 2011, os Estados Unidos participaram da coalizão internacional que ajudou a derrubar Muamar Gaddafi durante a onda de revoltas da Primavera Árabe. A queda do ditador, porém, não levou à consolidação de uma democracia estável. Ao contrário, o país se afundou em disputas armadas entre facções, milícias e governos rivais, tornando-se um dos exemplos mais citados de colapso institucional após uma intervenção externa.
Na Síria, os Estados Unidos atuaram principalmente no combate ao Estado Islâmico, apoiando forças locais e integrando uma coalizão internacional que enfraqueceu o grupo jihadista. Ainda assim, a guerra síria seguiu devastadora. Após a queda de Bashar al-Assad em 2024, outros grupos islamistas assumiram o poder, sem participação direta americana no processo de transição, ampliando as incertezas sobre o futuro do país.
Já no Afeganistão, a intervenção iniciada após os atentados de 11 de setembro de 2001 terminou duas décadas depois com o retorno do Talebã ao poder, em 2021. O desfecho foi interpretado por muitos analistas como mais um sinal dos limites do poder militar americano para transformar realidades políticas complexas em sociedades profundamente marcadas por divisões internas, guerras e disputas históricas.
Ao longo dos anos, o argumento de que intervenções externas poderiam promover democracia, conter ameaças e reorganizar a ordem regional foi sendo confrontado por resultados muito mais ambíguos. Em vários países, a queda de ditadores ou o enfraquecimento de grupos terroristas não foi acompanhada pela criação de instituições sólidas, estabilidade social ou reconciliação política.
O saldo dessas operações segue sendo sentido não apenas pelos países diretamente afetados, mas por toda a região. Para especialistas, o custo humano, político e estratégico das intervenções americanas deixou um legado de deslocamentos em massa, radicalização, crise humanitária e instabilidade persistente — um cenário que ajuda a explicar por que cada nova ação militar dos Estados Unidos no Oriente Médio reacende antigos temores sobre o que virá depois da guerra.



