Haddad deixa a Fazenda com legado de articulação política, reforma tributária e contas públicas sob pressão

Ministro deixa o governo Lula para disputar o Palácio dos Bandeirantes após mais de três anos marcados por conquistas históricas, embates fiscais e resistência interna no Planalto.

Fernando Haddad deixará o comando do Ministério da Fazenda nesta semana, encerrando uma gestão de três anos e dois meses à frente da equipe econômica do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Cotado para disputar o governo de São Paulo pelo PT nas eleições de outubro, o ministro sai do cargo com uma trajetória marcada por duas grandes vitrines — a aprovação da reforma tributária sobre o consumo e a criação do novo arcabouço fiscal —, mas também por dificuldades para controlar o avanço dos gastos públicos e consolidar a confiança do mercado em torno da política fiscal do governo.

Desde que assumiu a pasta, em janeiro de 2023, Haddad teve de lidar com um cenário de forte desconfiança. Sua chegada ocorreu em meio à transição de governo e logo após a aprovação da chamada PEC da Transição, que abriu espaço bilionário fora das antigas regras fiscais para acomodar promessas de campanha, como a ampliação do Bolsa Família. Se, por um lado, a medida deu fôlego ao novo governo, por outro reforçou o receio de investidores e economistas quanto ao compromisso da administração petista com o equilíbrio das contas públicas.

Ao longo da gestão, Haddad buscou se firmar como o principal fiador de uma agenda econômica mais organizada. Seu maior triunfo político veio com a aprovação da reforma tributária, promulgada em dezembro de 2023, após mais de três décadas de debates no Congresso. A proposta unifica tributos sobre o consumo e promete simplificar o sistema tributário brasileiro, considerado um dos mais complexos do mundo. O avanço da matéria foi tratado como uma vitória histórica e consolidou a imagem de Haddad como articulador habilidoso em um Congresso fragmentado.

Antes disso, o ministro havia conseguido aprovar o arcabouço fiscal, apresentado como substituto do teto de gastos. A nova regra passou a permitir a expansão real das despesas dentro de limites vinculados ao crescimento da arrecadação, com o objetivo de reorganizar as contas públicas sem paralisar a máquina do Estado. No início, a proposta foi bem recebida por agentes do mercado, mas perdeu força à medida que o governo passou a retirar determinadas despesas do alcance da regra e a rever metas fiscais. O resultado foi um desgaste gradual da credibilidade do modelo.

Na prática, Haddad esbarrou em um limite político importante: a dificuldade do governo em levar adiante medidas mais duras de contenção de gastos. Propostas de ajuste foram neutralizadas por prioridades do presidente Lula, como a manutenção da política de valorização real do salário mínimo e a preservação de programas sociais. Com isso, a estratégia da Fazenda passou a depender mais do aumento de arrecadação e da revisão de benefícios tributários do que de cortes efetivos de despesas.

Mesmo com a elevação das receitas, o governo não conseguiu atingir a meta de zerar o déficit público. Além disso, persistiu a avaliação de que a trajetória da dívida brasileira ainda inspira cautela, sem perspectiva clara de queda no curto prazo. Esse ambiente enfraqueceu a imagem do ministro em parte do mercado, que passou a enxergá-lo, em diferentes momentos, como uma voz isolada dentro do próprio governo na defesa de maior disciplina fiscal.

Ainda assim, a gestão de Haddad também acumulou indicadores positivos. Durante seu período no ministério, o país registrou redução do desemprego, alta do rendimento médio da população e melhora em indicadores sociais, com queda da pobreza e da desigualdade. Esses resultados ajudaram o governo a sustentar um discurso de recuperação econômica com inclusão social, apesar das dúvidas persistentes sobre a sustentabilidade fiscal desse modelo.

Especialistas avaliam que Haddad deixa a Fazenda com saldo misto. De um lado, demonstrou capacidade técnica, habilidade de negociação e protagonismo na aprovação de reformas relevantes. De outro, não conseguiu implantar o ajuste fiscal na dimensão considerada necessária por economistas para estabilizar de forma mais robusta a dívida pública. A leitura predominante é que sua atuação foi condicionada pelas restrições políticas impostas pelo Palácio do Planalto e pelas escolhas do próprio presidente da República.

Ao deixar o cargo para entrar de vez na disputa eleitoral em São Paulo, Haddad encerra um ciclo em que foi, ao mesmo tempo, o principal rosto da agenda econômica do governo Lula e o símbolo de seus limites. Sua passagem pela Fazenda ficará marcada por avanços institucionais importantes, mas também pela dificuldade de transformar responsabilidade fiscal em prioridade absoluta dentro de uma gestão mais inclinada à expansão de gastos e ao reforço de políticas sociais.