Mais votos, mas fora da Câmara: entenda por que candidatos populares podem não se eleger

Ter muitos votos não garante uma cadeira na Câmara dos Deputados no Brasil. Apesar de parecer contraditório, o sistema eleitoral brasileiro prioriza não apenas o desempenho individual dos candidatos, mas principalmente o resultado coletivo dos partidos ou federações.

O modelo adotado no país é o chamado sistema proporcional, no qual as vagas são distribuídas com base no total de votos recebidos pelas legendas. Isso significa que, antes de olhar para os candidatos mais votados, é preciso verificar quantas cadeiras cada partido ou federação conquistou.

Como funciona na prática

O primeiro passo é calcular o chamado quociente eleitoral, que define quantos votos são necessários para que um partido consiga uma vaga. Esse número é obtido dividindo o total de votos válidos pelo número de cadeiras em disputa.

No estado de Mato Grosso, por exemplo, nas eleições de 2022, foram registrados mais de 1,7 milhão de votos válidos para deputado federal. Como o estado tem direito a oito vagas, o quociente eleitoral ficou em 216.284 votos.

Isso quer dizer que um partido ou federação precisava atingir esse número para garantir ao menos uma cadeira.

Quando muitos votos não são suficientes

Foi nesse cenário que a deputada Rosa Neide, mesmo sendo a mais votada no estado com mais de 124 mil votos, não conseguiu se reeleger. O motivo: sua federação não alcançou votos suficientes para conquistar cadeiras proporcionais à sua votação.

Situação semelhante ocorreu em São Paulo. O ex-governador José Serra recebeu mais de 88 mil votos, mas ficou fora da Câmara. Já o deputado Tiririca foi eleito com cerca de 71 mil votos, beneficiado pelo desempenho do seu partido, que atingiu o quociente necessário.

Debate sobre mudanças

O modelo é frequentemente alvo de críticas por gerar esse tipo de distorção na percepção do eleitor. Por isso, há discussões no Congresso Nacional sobre possíveis mudanças no sistema eleitoral, incluindo propostas para alterar as regras a partir de 2030.

Enquanto isso, segue valendo a lógica atual: nas eleições proporcionais brasileiras, o voto no candidato também ajuda o partido — e é o desempenho coletivo que, no fim das contas, decide quem ocupa as cadeiras no Legislativo.