Medida temporária do governo americano para liberar cargas de petróleo russo retidas no mar provocou críticas da Ucrânia e de líderes europeus, que veem risco de fortalecimento econômico da Rússia em meio à guerra
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e líderes da União Europeia criticaram nesta sexta-feira (13) a decisão do governo de Donald Trump de flexibilizar temporariamente as sanções dos Estados Unidos sobre o petróleo russo. A medida foi anunciada pelo Departamento do Tesouro americano na quinta-feira (12) e permite, até 11 de abril, a comercialização de cargas de petróleo bruto e derivados da Rússia que já estavam embarcadas em navios antes das 00h01 de 12 de março.
Segundo a justificativa da Casa Branca, a autorização busca ampliar a oferta global de energia e conter a disparada dos preços do petróleo, intensificada após a guerra contra o Irã e o aumento das tensões no Oriente Médio. Ainda assim, a decisão gerou forte reação entre aliados europeus e do governo ucraniano.
Durante visita a Paris para se reunir com o presidente da França, Emmanuel Macron, Zelensky afirmou que o gesto de Washington não ajuda a encerrar a guerra nem contribui para a construção da paz na Ucrânia. Segundo ele, a flexibilização pode garantir à Rússia cerca de US$ 10 bilhões adicionais para financiar o conflito.

Macron, por sua vez, ponderou que as isenções anunciadas pelos Estados Unidos são “temporárias e limitadas”, embora tenha ressaltado que ele e outros aliados não aprovam o enfraquecimento das sanções impostas a Moscou.
Mais cedo, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, também condenou a medida em publicação na rede social X. Ele afirmou que a decisão foi tomada de forma unilateral por Washington, sem consulta aos parceiros da União Europeia, e alertou que a pressão econômica sobre o governo de Vladimir Putin é essencial para forçar negociações sérias por uma paz “justa e duradoura”.
A nova licença dos EUA libera para o mercado cerca de 100 milhões de barris de petróleo russo, de acordo com Kirill Dmitriev, enviado do Kremlin para assuntos econômicos. Esse volume equivale aproximadamente a um dia da demanda mundial de petróleo e pode aliviar, ainda que de forma temporária, a pressão sobre os preços internacionais.
A decisão marca a primeira flexibilização relevante das sanções americanas contra a energia russa desde o início da guerra na Ucrânia, em fevereiro de 2022. Naquele período, Estados Unidos, União Europeia e aliados adotaram restrições severas para limitar a receita de Moscou com exportações de petróleo e derivados.
Em 2022, empresas americanas foram proibidas de comprar petróleo russo. Pouco depois, a União Europeia, que era responsável por cerca de 20% das importações do petróleo exportado pela Rússia, também reduziu significativamente sua dependência do produto. A Rússia, porém, segue entre os maiores produtores mundiais, respondendo por cerca de 10% da oferta global, com produção estimada entre 9 e 10 milhões de barris por dia.
O anúncio dos EUA ocorre em meio a um cenário de forte instabilidade no mercado internacional de energia. O barril do petróleo Brent, referência global, superou os US$ 100 e atingiu o maior valor em quase quatro anos após ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, seguidos pela reação de Teerã. A escalada elevou os temores em torno do transporte marítimo no Oriente Médio, especialmente no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto de todo o petróleo comercializado no planeta.
A ameaça iraniana de interromper embarques na região reforçou o temor de desabastecimento global e pressionou ainda mais os preços. Diante desse quadro, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, afirmou que a autorização temporária tem o objetivo de “ampliar o alcance global da oferta existente” de petróleo. Segundo ele, a medida é limitada e não deve gerar “benefício financeiro significativo” ao governo russo, já que a maior parte da arrecadação de Moscou ocorre no momento da extração.
Mesmo com essa justificativa, analistas avaliam a decisão como um gesto político sensível em meio às tensões geopolíticas. Trump já vinha sinalizando que poderia aliviar algumas restrições sobre a energia russa para evitar uma crise mais ampla no mercado internacional e conter o impacto econômico da alta do petróleo.
A flexibilização também ocorre poucos dias depois de Washington conceder autorização específica para que a Índia comprasse petróleo russo que estava retido no mar, como forma de compensar perdas de fornecimento vindas do Oriente Médio.
Do lado russo, o anúncio foi tratado como reconhecimento da relevância do petróleo do país para o equilíbrio do mercado mundial. Em publicação no Telegram, Kirill Dmitriev afirmou que, sem o petróleo russo, o mercado global de energia não conseguiria se manter estável.
Outro porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, declarou nesta sexta-feira que a Rússia interpreta a isenção das sanções como uma tentativa dos Estados Unidos de estabilizar os mercados globais de energia. Segundo ele, nesse ponto, os interesses de Moscou e Washington coincidem.
Desde a invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022, a Rússia passou a ser alvo de uma ampla rodada de sanções impostas por países ocidentais. As medidas incluíram proibições de importação, limites de preço para o petróleo russo e restrições ao financiamento e ao seguro de navios envolvidos no transporte da commodity.



