Melanoma sem pigmentação: dor nas costas leva educador físico a diagnóstico de câncer metastático raro e agressivo

Sem apresentar a típica lesão escura na pele, Rodrigo Bulso foi diagnosticado com um melanoma amelanótico que já havia se espalhado para ossos, pulmões e fígado. O caso evidencia as dificuldades no diagnóstico desse tipo de câncer e destaca os avanços da imunoterapia no tratamento.

Rodrigo Bulso sempre foi visto como alguém praticamente imune a problemas de saúde. Educador físico, praticava tênis desde os 7 anos, atuou como professor por mais de uma década e também concluiu mestrado e doutorado. No início deste ano, decidiu reforçar ainda mais os cuidados com o próprio corpo: passou a melhorar a alimentação, organizar melhor o sono e ajustar a rotina de treinos.

Mas algo inesperado aconteceu. Em janeiro, ele começou a sentir uma dor incomum nas costas. Não era a dor muscular típica após exercícios intensos. Havia um desconforto estranho ao realizar determinados movimentos. Rodrigo reduziu a intensidade dos treinos, tomou analgésicos e aguardou que o incômodo passasse. Mas isso não aconteceu.

Com o passar dos dias, a dor foi se intensificando até se tornar incapacitante. No trajeto até o hospital, cada irregularidade do asfalto provocava uma sensação semelhante a uma descarga elétrica percorrendo sua coluna. Movimentos simples, como deitar ou levantar da maca, faziam com que ele permanecesse por cerca de dez minutos sob dor intensa.

A tomografia revelou uma situação inesperada: uma vértebra fraturada. A fratura não havia sido causada por trauma, mas pelo enfraquecimento provocado por um câncer. E não se tratava de um tumor ósseo primário, e sim de uma metástase localizada nas vértebras.

A partir desse momento, os exames passaram a buscar a origem do câncer. As imagens revelaram múltiplas lesões espalhadas pelo organismo. Havia tumores nos pulmões, no fígado, no trato gastrointestinal e em outras regiões da coluna. Rodrigo foi internado imediatamente para investigação.

Dias depois, a biópsia confirmou o diagnóstico: melanoma metastático. Mas não se tratava do tipo mais comum da doença.

O laudo indicava que as lesões encontradas no estômago e no duodeno eram formadas por um melanoma sem pigmentação — um subtipo conhecido como melanoma amelanótico. Em vez da mancha escura característica desse tipo de câncer, tratava-se de um tumor que não produz melanina.

Um melanoma sem pigmento

O melanoma costuma ser associado a lesões escuras, irregulares e pigmentadas na pele. No caso de Rodrigo, porém, não havia nenhuma mancha preta visível. Nem ele nem os médicos haviam identificado qualquer lesão suspeita na pele.

O oncologista Stephen Stefani, do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, explica que o melanoma amelanótico é biologicamente o mesmo tumor — originado no melanócito, a célula responsável pela produção de melanina —, mas se manifesta de forma diferente.

Segundo ele, a diferença está no fenótipo, ou seja, na forma como a doença se apresenta. Devido a mutações acumuladas, a célula tumoral perde a capacidade de produzir melanina. Uma das hipóteses mais aceitas envolve alterações em uma enzima chamada tirosinase, fundamental na cascata bioquímica responsável pela formação do pigmento. Sem essa produção, a lesão pode surgir com coloração avermelhada, rosada ou até passar despercebida.

A origem celular permanece a mesma. O que muda é a forma de expressão do tumor. Trata-se de um melanoma que deixou de produzir pigmento porque a célula se tornou tão indiferenciada que perdeu características da célula original.

Essa ausência de cor dificulta o reconhecimento precoce da doença. Diferentemente das lesões escuras clássicas, que costumam chamar mais atenção, o melanoma amelanótico pode ser confundido com alterações benignas ou simplesmente não ser percebido — como ocorreu no caso de Rodrigo.

Em alguns casos, inclusive, a lesão primária pode desaparecer espontaneamente, um fenômeno já descrito na literatura médica. Nesses cenários, as metástases acabam sendo a primeira manifestação clínica da doença.

Fratura vertebral, o primeiro sinal

No caso de Rodrigo, o primeiro indício da doença foi a fratura em uma vértebra torácica. O tumor havia enfraquecido o osso por dentro, comprometendo sua estrutura. Outras regiões da coluna também apresentavam lesões.

Os exames de imagem mostraram que o câncer já havia se espalhado para pulmões, fígado, rins, linfonodos e ossos. Tratava-se, portanto, de uma doença sistêmica — ou seja, não restrita a um único local, mas disseminada pelo organismo.

O melanoma é conhecido justamente por seu comportamento imprevisível e agressivo. A doença pode atingir praticamente qualquer órgão e, quando alcança os ossos, aumenta o risco de fraturas mesmo sem a ocorrência de traumas significativos.

“De repente, eu estava com dor nas costas e, no minuto seguinte, com câncer e a coluna fraturada”, relata Rodrigo.

Segundo ele, a reação inicial foi de incredulidade. “Parecia um pesadelo. Não parecia real.”

O diagnóstico e o início do tratamento

Apesar da extensão da doença, o diagnóstico também trouxe uma informação que, de certa forma, lhe deu esperança. Entre os diferentes tipos de câncer, o melanoma é hoje uma das doenças que mais se beneficiam da imunoterapia — tratamento que estimula o próprio sistema imunológico a reconhecer e combater as células tumorais.

Rodrigo iniciou rapidamente o tratamento com a combinação de dois medicamentos imunoterápicos. As infusões são administradas a cada três semanas.

O oncologista Stephen Stefani explica que o melanoma é um dos tumores com maior número de mutações acumuladas no DNA das células. Quanto maior o número de mutações, maior também a probabilidade de surgirem proteínas alteradas na superfície dessas células — estruturas que funcionam como sinais de que algo está diferente do tecido saudável.

Em condições normais, o sistema imunológico é capaz de identificar essas alterações e reagir contra elas. No entanto, muitos tumores desenvolvem mecanismos para escapar dessa vigilância. Eles ativam verdadeiros “freios” do sistema imune, impedindo que as células de defesa atuem de forma eficaz.

É justamente nesses mecanismos que atuam medicamentos como os inibidores de PD-1 e CTLA-4. Esses tratamentos removem o bloqueio imposto pelo tumor, permitindo que o sistema imunológico volte a reconhecer as células cancerígenas como algo anormal e passe a combatê-las.

Como o melanoma costuma apresentar muitas mutações — e, consequentemente, mais “marcas” que o diferenciam do tecido normal — ele tende a responder melhor a esse tipo de estratégia imunológica do que diversos outros tumores.

Segundo o oncologista, até pouco mais de uma década atrás era praticamente impensável falar em controle prolongado de um melanoma metastático. Hoje, porém, já existem casos de remissão completa com o uso da imunoterapia.

A meta do tratamento, nesse cenário, é justamente alcançar uma resposta profunda e duradoura.

Cirurgia, reconstrução e recomeço

A prioridade inicial foi tratar a coluna. Rodrigo passou por uma cirurgia para estabilizar a vértebra fraturada, procedimento que incluiu a colocação de placa e parafusos de titânio.

Os primeiros dias após a operação foram desafiadores. A dor intensa e o receio de se movimentar transformavam tarefas simples em grandes obstáculos. Com sessões diárias de fisioterapia, porém, a recuperação avançou de forma positiva.

Hoje, ele afirma não sentir dores relacionadas ao câncer. “Se não fosse a fratura, talvez a gente não tivesse descoberto”, diz.

Rodrigo encara o tratamento com tranquilidade e determinação.

“Vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance. E aquilo que não estiver, eu aceito.”