Após dois anos seguidos de protagonismo no Oscar, cinema brasileiro entra no novo ciclo com moral em alta; ainda assim, definição real das chances depende dos festivais e da força dos lançamentos no exterior
Depois de viver uma arrancada histórica no Oscar, o Brasil entra na corrida de 2027 cercado de expectativa, mas ainda sem um favorito claro. O país venceu o Oscar de filme internacional em 2025 com Ainda Estou Aqui e voltou à lista de indicados em 2026 com O Agente Secreto, o que naturalmente elevou a confiança em uma nova campanha forte no próximo ciclo.
O primeiro grande termômetro dessa disputa será o Festival de Cannes. A seleção oficial da edição de 2026 será anunciada em 9 de abril, e o evento acontecerá entre 12 e 23 de maio. Não é exagero dizer que dali sairá boa parte do desenho inicial da temporada: Cannes tem se consolidado como uma vitrine central para o cinema internacional na corrida ao Oscar, especialmente depois de empilhar títulos que seguiram fortes até a premiação da Academia.
O retrospecto recente ajuda a explicar o otimismo brasileiro. O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, chegou ao Oscar de 2026 depois de ganhar enorme impulso em Cannes, onde rendeu ao Brasil os prêmios de melhor direção para Kleber Mendonça Filho e de melhor ator para Wagner Moura. Esse tipo de trajetória reforça a percepção de que um filme brasileiro que entre forte em Cannes ou, mais adiante, em Veneza, passa a ter caminho real para sonhar com a disputa internacional.
Entre os títulos nacionais que já entram no radar, Feito Pipa, de Allan Deberton, aparece como o nome mais palpável neste momento. O longa já conquistou destaque na Berlinale 2026, onde foi premiado na mostra Generation Kplus, dando ao filme uma largada internacional concreta antes mesmo do anúncio de Cannes. É o tipo de início de trajetória que costuma chamar atenção do circuito global.
Outros projetos chamam atenção mais pelo peso dos nomes envolvidos do que por resultados já consolidados em festivais. Escola sem Muros, de Cao Hamburger, começou a ser filmado em 2025 e aposta em uma história inspirada na transformação da Escola Campos Salles, em Heliópolis. Já No Jardim do Ogro, estrelado por Alice Braga, nasce com apelo de elenco e com a força de uma parceria entre Globoplay e Disney. Vicentina Pede Desculpas, de Gabriel Martins, também surge como título a observar, com lançamento previsto para 2026.
Neste momento, portanto, a resposta mais honesta é que o Brasil tem chance, sim, mas ainda não tem um nome incontestável para cravar presença no Oscar 2027. O país chega embalado, respeitado e muito mais observado do que em anos anteriores, porém a verdadeira fotografia da disputa só começará a aparecer quando Cannes revelar sua seleção — e, depois, quando Veneza e o mercado internacional mostrarem quais filmes ganharão tração, distribuição e campanha suficientes para atravessar o Atlântico com força.



