KPC: entenda o que é a superbactéria resistente a antibióticos que levou hospital a esvaziar a UTI.

Um setor do Hospital Municipal Dr. Mário Gatti, em Campinas, foi fechado após sete pacientes apresentarem infecção por uma bactéria multirresistente. O microrganismo é de difícil tratamento e costuma circular principalmente em ambientes hospitalares.

A Unidade de Terapia Intensiva (UTI) adulta do Hospital Municipal Dr. Mário Gatti, em Campinas (SP), foi temporariamente fechada após sete pacientes apresentarem infecção pela chamada superbactéria KPC, um microrganismo conhecido por sua alta resistência a diversos antibióticos.

A decisão foi tomada como medida de prevenção para evitar a disseminação da bactéria dentro da unidade hospitalar. Quando casos desse tipo são identificados, as equipes de controle de infecção costumam adotar protocolos rigorosos, que incluem o isolamento dos pacientes infectados e a desinfecção intensiva dos ambientes.

🧐 Mas afinal, o que é essa bactéria e por que ela preocupa tanto os especialistas?

O que é a bactéria KPC

A KPC não representa uma nova espécie bacteriana. Trata-se de uma variante da bactéria Klebsiella pneumoniae, um microrganismo já conhecido que pode provocar diferentes tipos de infecção. O problema surge quando essa bactéria desenvolve mecanismos que tornam o tratamento mais difícil.

De acordo com o infectologista Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), a principal característica da KPC é a capacidade de produzir uma enzima que neutraliza diversos antibióticos.

“A KPC é uma Klebsiella que desenvolveu, por mutações, a capacidade de produzir uma enzima capaz de destruir grande parte dos antibióticos normalmente utilizados no tratamento”, explica o especialista.

Essa enzima, chamada carbapenemase, consegue inativar medicamentos considerados importantes no combate a infecções bacterianas, o que reduz significativamente as opções terapêuticas disponíveis.

Por que ela é chamada de “superbactéria”

Bactérias que desenvolvem resistência a vários antibióticos são classificadas como multirresistentes — popularmente conhecidas como superbactérias.

Nessas situações, as alternativas de tratamento se tornam mais restritas, sendo muitas vezes necessário recorrer a combinações de medicamentos ou a antibióticos menos utilizados.

“A resistência antimicrobiana não é algo simples, não funciona como tudo ou nada. Em alguns casos, a bactéria apresenta resistência parcial, e precisamos associar diferentes antibióticos para conseguir controlar a infecção”, explica Kfouri.

Mesmo quando o tratamento é possível, ele tende a ser mais complexo e exige acompanhamento médico cuidadoso para garantir a eficácia e reduzir riscos ao paciente.

Que doenças a KPC pode causar

Assim como outras bactérias associadas ao ambiente hospitalar, a KPC pode provocar diferentes tipos de infecção, dependendo da região do corpo afetada.

Entre as infecções mais comuns estão:
• pneumonia
• infecção urinária
• infecção na corrente sanguínea (sepse)
• meningite

Na maioria das vezes, essas infecções ocorrem em pacientes que já estão hospitalizados e apresentam quadros clínicos mais graves.

Por que a bactéria aparece mais em hospitais

A KPC é considerada uma bactéria típica do ambiente hospitalar. Isso acontece porque pacientes internados frequentemente são submetidos a procedimentos invasivos, como uso de sondas, cateteres, ventilação mecânica ou cirurgias, situações que podem facilitar a entrada de microrganismos no organismo.

Outro fator importante é que muitos desses pacientes possuem o sistema imunológico comprometido ou já fizeram uso prévio de antibióticos, condições que favorecem o surgimento e a disseminação de bactérias resistentes.

“A maioria dos casos ocorre em ambiente hospitalar, onde há pacientes mais vulneráveis e maior utilização de antibióticos”, explica o infectologista Renato Kfouri.

Como a bactéria se espalha

A transmissão da KPC ocorre principalmente por contato com superfícies, objetos ou materiais contaminados, além do contato com secreções corporais.

A bactéria pode ser transmitida por meio de:
• secreções respiratórias
• sangue
• fezes
• urina
• superfícies hospitalares contaminadas

Por esse motivo, medidas como a higienização rigorosa das mãos e a desinfecção adequada dos ambientes hospitalares são essenciais para evitar a disseminação do microrganismo e o surgimento de surtos.

Por que hospitais isolam pacientes ou fecham setores

Quando um caso é identificado, os hospitais costumam adotar protocolos rigorosos para impedir que a bactéria se espalhe dentro da unidade de saúde.

Entre as principais medidas estão:
• isolamento do paciente infectado
• utilização de equipes exclusivas para o atendimento
• limpeza e desinfecção completa do quarto e dos equipamentos
• monitoramento de outros pacientes internados

“Quando um caso é identificado, existe a possibilidade de que a bactéria já esteja circulando naquele ambiente. Por isso, são necessárias medidas rigorosas para evitar novos casos”, explica o infectologista Renato Kfouri.

Em situações em que há vários pacientes infectados, pode ser necessário suspender temporariamente o funcionamento de determinados setores, como unidades de terapia intensiva.

O papel do uso excessivo de antibióticos

O aumento das chamadas superbactérias está diretamente relacionado ao uso inadequado de antibióticos.

Entre os fatores que contribuem para esse problema estão:
• automedicação
• interrupção precoce do tratamento
• uso desnecessário de antibióticos em hospitais
• utilização dessas substâncias na criação de animais e na agricultura

Segundo Kfouri, esse fenômeno, conhecido como resistência antimicrobiana, é atualmente um dos principais desafios da medicina.

“O grande problema é que a resistência bacteriana cresce em todo o mundo, enquanto o desenvolvimento de novos antibióticos não avança na mesma velocidade”, afirma o especialista.