“Os últimos da fila”: mais de mil crianças e adolescentes com deficiência esperam por adoção no Brasil

A permanência prolongada em instituições e a ausência de vínculos familiares podem prejudicar o desenvolvimento cerebral de crianças, segundo especialistas. Reportagem especial apresenta histórias de casais que decidiram adotar pessoas com deficiência — e também de jovens que ainda aguardam a chance de encontrar uma família nos abrigos.

Diego*, de 15 anos, vive em uma casa de acolhimento com outros 14 crianças e adolescentes. No ambiente, as companhias mudam com frequência: alguém pode ser adotado e ir embora, enquanto outro jovem pode chegar. Até mesmo os adultos responsáveis pelos cuidados podem mudar ao longo do tempo.

➡️ O adolescente foi transferido para o atual abrigo, em São Paulo, em 2015. Na época, ele já havia sido diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Diego não fala, mas interage com os outros acolhidos — todos neurotípicos — e gosta especialmente de dançar com eles.

“Diego está inscrito no Cadastro Nacional de Adoção, mas até hoje não apareceu nenhum pretendente”, afirma Dirce*, coordenadora da instituição.

“Fazemos o que está ao nosso alcance. Quando chegou aqui, aos 5 anos, ele não tinha qualquer estímulo sensorial e se deslocava se arrastando, em vez de andar. Hoje já consegue cuidar da própria higiene. Ainda assim, ele precisa de uma atenção individualizada que apenas uma família poderia oferecer.”

➡️ Em dezembro de 2025, o Brasil tinha 1.146 crianças e adolescentes de até 16 anos com algum tipo de deficiência disponíveis para adoção, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça. Ao mesmo tempo, mais de 32 mil pessoas estavam cadastradas como pretendentes ativos.

“A conta não fecha. O perfil procurado pelos adotantes costuma ser muito específico. Por isso, crianças com deficiência frequentemente permanecem nas instituições de acolhimento até atingir a maioridade”, explica Mônica Gonzaga Arnoni, juíza assessora da Corregedoria Geral da Justiça de São Paulo.

Na Casa Lar Dona Meca, no Rio de Janeiro — instituição que acolhe apenas crianças e jovens com deficiência — a realidade é semelhante. “Temos muitas entradas, mas quase nenhuma saída. Houve alguns casos de reintegração familiar e algumas adoções, mas são raros”, relata Jéssica Souza, coordenadora da casa.

Em todo o país, apenas 173 adoções de pessoas com deficiência foram registradas em 2025.

Nesta reportagem especial, veja também:
• por que a institucionalização pode prejudicar o desenvolvimento neurológico de crianças;
• quantos pretendentes cadastrados aceitariam adotar uma criança com deficiência, como fizeram Fabrício e Bruno;
• quais são os receios mais comuns de quem considera esse tipo de adoção;
• o destino de jovens com deficiência que chegam à maioridade sem terem sido adotados;
• a importância de uma decisão consciente para evitar um novo abandono;
• e a história de um casal que inicialmente não pretendia adotar uma criança com deficiência, mas teve sua trajetória transformada ao conhecer o pequeno Davi, autista.

“O desenvolvimento do bebê em instituição fica totalmente em risco”

A permanência em abrigos, mesmo quando as instituições oferecem boas condições de cuidado, pode trazer impactos importantes para o desenvolvimento dos bebês. Isso ocorre principalmente pela ausência de vínculos afetivos duradouros e de uma atenção individualizada.

“Os efeitos do cuidado institucional podem alterar a estrutura e o funcionamento do cérebro, além de influenciar o desenvolvimento cognitivo, as funções executivas, o desenvolvimento emocional e a saúde mental”, afirma Charles Zeanah, neurocientista romeno, professor de psiquiatria e pediatria da Universidade de Tulane, nos Estados Unidos, e um dos principais pesquisadores do mundo sobre os impactos da institucionalização no comportamento humano.

Segundo ele, todas essas áreas ficam mais vulneráveis quando bebês são criados em ambientes de cuidado coletivo, em vez de receberem atenção individual de um adulto de referência.

➡️ No caso de crianças com deficiência, os prejuízos tendem a ser ainda mais evidentes quando não há acolhimento ou adoção por uma família. A ausência de um adulto que acompanhe de perto os sinais individuais da criança e ajuste os estímulos no cotidiano limita avanços importantes, que dependem de constância, previsibilidade e repetição — bases fundamentais da estimulação precoce.

“Quem está em um abrigo tem como cuidador alguém que precisa dividir a atenção com várias outras crianças. Essa pessoa vai alimentar, dar banho e garantir os cuidados básicos, mas os estímulos individualizados, especialmente na motricidade e na comunicação, acabam ficando prejudicados. Em casos de desenvolvimento atípico, a falta de estímulos nos primeiros meses e anos de vida se torna ainda mais evidente”, explica Silvana Maria Blascovi de Assis, professora do curso de Fisioterapia da Universidade Mackenzie.

Ela ressalta que, mesmo quando há terapias oferecidas pelas instituições, o potencial máximo da criança dificilmente é alcançado sem continuidade no ambiente familiar. “No abrigo nunca haverá um cuidador exclusivo para cada criança, e isso faz diferença no desenvolvimento.”

✏️ Os benefícios de um cuidado individualizado podem ser observados na história de Sérgio, diagnosticado com autismo e adotado pelo casal Fabrício Pellegrino e Bruno Bruhns. Quando chegou à família, aos 12 anos, ele vivia em uma instituição estruturada, com escola e acompanhamento profissional. Ainda assim, os avanços mais significativos só ocorreram após a adoção.

“Mesmo sendo bem cuidado no abrigo, ele era aprovado automaticamente na escola e não sabia fazer contas. Com apoio em casa, material adaptado, tempo e alguém dedicado a acompanhá-lo, ele conseguiu aprender”, conta Fabrício.

Segundo ele, a principal mudança veio da constância do vínculo familiar. “É sentar ao lado dele para fazer a tarefa, repetir, tentar de outra forma quando não funciona. Às vezes, é perceber que ele está cansado e parar. Isso é algo difícil de fazer quando se cuida de muitas crianças ao mesmo tempo em um abrigo”, afirma. “Ter alguém presente todos os dias, observando e ajustando o processo, faz toda a diferença.”

Quantos pretendentes aceitam adotar crianças com deficiência?

Dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento indicam que 67% dos pretendentes à adoção aceitam apenas crianças sem deficiência. A resistência é ainda maior quando há diagnóstico de comprometimento intelectual: somente 5% dos habilitados consideram essa possibilidade.

Nos casos de deficiências exclusivamente físicas, como surdez ou cegueira, a aceitação é um pouco maior, chegando a 27,9%.

Na contramão dessas estatísticas estão Fabrício e Bruno, pais de Sérgio, citado anteriormente na reportagem. Ao se cadastrarem no processo de adoção, eles decidiram não estabelecer qualquer restrição quanto à idade, sexo, cor ou condição de saúde da criança.

“Não queríamos fazer escolhas, porque não acreditamos que seja assim que se tem um filho”, afirmam.

Durante o processo, a equipe de assistência social questionou se essa postura mais aberta tinha como objetivo acelerar a adoção. A resposta foi imediata. “Se dissessem que demoraria ainda mais sem escolher um perfil, eu manteria a decisão do mesmo jeito”, conta Fabrício.

Para o casal, a imprevisibilidade faz parte da própria experiência de ser pai ou mãe.

“Mesmo quando se tem um filho biológico e aparentemente saudável, ele pode desenvolver uma doença ao longo da vida. Não existe garantia de que a criança não vai precisar de cuidados especiais”, afirmam.

➡️ Apesar de terem optado por não impor critérios no cadastro, Fabrício e Bruno reconhecem que essa escolha não é viável para todos. Para eles, é importante que os pretendentes sejam honestos sobre seus limites durante o processo.

“Se a pessoa entende que não tem condições de cuidar de uma criança maior ou com necessidades específicas, o melhor é deixar isso claro desde o início”, diz Bruno. “É muito melhor do que adotar e depois devolver a criança ou o adolescente.”

Qual é o medo dos pais?

Os principais fatores que afastam muitas famílias da possibilidade de adotar uma pessoa com deficiência incluem:
• o receio de sobrecarga emocional;
• dificuldades financeiras para garantir tratamentos e acompanhamentos necessários;
• falta de apoio do poder público nas áreas de saúde e educação;
• desconhecimento sobre as necessidades específicas da criança ou do adolescente;
• medo das mudanças na rotina familiar.

Diante desse cenário, especialistas apontam que reduzir o número de crianças e adolescentes com deficiência vivendo em instituições depende de uma atuação conjunta do poder público e da sociedade.

Para evitar o abandono

O defensor público Gustavo Samuel Santos afirma que, em muitos casos, o problema começa antes mesmo da institucionalização. Segundo ele, o Estado frequentemente retira crianças de suas famílias por falta de condições básicas, em vez de investir em políticas públicas que apoiem essas famílias.

“Muitas vezes, a criança é afastada da mãe por falta de moradia ou de suporte à família em situação de pobreza, quando o mais adequado seria investir em políticas de habitação e assistência social”, explica.

De acordo com Matilde Luna, diretora da Rede Latino-Americana de Acolhimento Familiar e diretora do Unicef Argentina, famílias que têm filhos com deficiência frequentemente precisam de suporte especializado — algo que nem sempre está disponível.

“Quando uma criança nasce com deficiência ou desenvolve alguma condição ao longo da vida, essa família inevitavelmente precisará de apoio específico. Infelizmente, muitas vezes esse apoio não existe”, afirma.

Sem esse suporte, algumas crianças acabam sendo encaminhadas para instituições de acolhimento. E, segundo a especialista, isso tende a colocá-las em uma posição ainda mais vulnerável.

“Essas crianças acabam se tornando as últimas da fila da adoção e também as últimas a receber o cuidado adequado.”

Para incentivar a adoção

Para especialistas, ampliar a adoção de crianças com deficiência também depende de políticas de apoio concretas.

“É muito difícil que alguém se disponha a adotar uma criança com deficiência sem contar com suporte adequado. E é justamente aí que estamos falhando”, afirma Matilde Luna.

Além de campanhas de informação, é necessário oferecer assistência real às famílias, incluindo apoio financeiro para custear terapias, profissionais especializados e acompanhamento contínuo. Outra alternativa seria garantir que o sistema público de saúde e educação consiga atender plenamente essas demandas, sem que as famílias precisem recorrer à Justiça.

“Quanto mais cedo esse trabalho for realizado, melhor. Crianças que permanecem em instituições por longos períodos podem sofrer danos profundos. A institucionalização prolongada compromete a interação social, a aprendizagem e o desenvolvimento de forma duradoura”, alerta a especialista. “A sociedade precisa ser sensibilizada para essa realidade.”

Outro desafio é o fator idade. A cada ano que passa, as chances de adoção diminuem significativamente. O interesse dos pretendentes costuma cair de forma acentuada quando a criança ultrapassa os 10 anos de idade.

Entre janeiro de 2019 e dezembro de 2025, foram registradas 1.026 adoções de pessoas com deficiência no Brasil. Mais da metade delas — 544 casos — envolveu crianças de até 4 anos de idade.

E quando a adoção nunca acontece?

Instituições como a Fraternidade Irmã Clara, em São Paulo, também acolhem pessoas que já atingiram a maioridade, mas não têm autonomia para viver sozinhas nem familiares que possam assumir seus cuidados.

Foi nesse local que Rinaldo Castro, de 37 anos, vivia quando foi entrevistado. A casa possui diversos quartos distribuídos ao longo de um corredor: alguns equipados com grades e camas hospitalares, outros decorados com bichos de pelúcia sobre as camas. Na instituição, todos os acolhidos têm paralisia cerebral, e Rinaldo era o único que conseguia se comunicar verbalmente. Os demais se expressavam por meio de gritos — às vezes até de alegria — e gemidos. O silêncio era raro.

“Aqui, que é minha casa agora, é claro que é bom. Mas às vezes o que mais me incomoda é que eu fico triste sem saber exatamente o motivo. Hoje, por exemplo, estou um pouco mais tranquilo”, relata.

A proposta da instituição é cuidar das pessoas com paralisia cerebral até que suas famílias consigam se reorganizar e possam recebê-las novamente. No entanto, dificuldades financeiras fizeram com que a ONG transferisse recentemente Rinaldo e outros 11 jovens para um novo abrigo.

“Foi a coisa mais difícil da minha vida levá-los embora”, contou uma funcionária.

Segundo Emilia Tanaka, coordenadora administrativa da instituição, o principal objetivo do projeto sempre foi fortalecer os vínculos familiares.

“Nosso trabalho é apoiar as famílias para que a criança ou o jovem possa retornar ao convívio familiar. Em alguns casos, por exemplo, eles passam apenas os finais de semana com os parentes para reforçar esses laços”, explica.

No entanto, essa reintegração nem sempre é possível. “Em muitos casos sequer sabemos qual é a origem dessas pessoas. E, infelizmente, é muito difícil que alguém de fora se interesse em adotá-las.”

Assim, o que inicialmente deveria ser um acolhimento temporário acaba se tornando permanente para alguns moradores. Muitos passam praticamente toda a vida na instituição, saindo apenas para frequentar escolas especiais ou participar de atividades e passeios organizados pela ONG.

“A gente tenta oferecer o melhor cuidado possível, mas sabemos que não podemos substituir uma família — isso seria impossível”, afirma Tanaka. “Nosso carinho serve para amenizar um pouco a dor de não ter ninguém, mas sem a pretensão de ocupar esse lugar.”

Quais são as alternativas antes da adoção?

A Justiça reconhece que, quando a adoção se torna a única alternativa, as chances de crianças e adolescentes com deficiência encontrarem uma família diminuem consideravelmente. Por isso, antes de chegar a essa etapa, o sistema de proteção prioriza outras possibilidades.

A ordem de prioridade costuma seguir o seguinte caminho:
• reintegração à família de origem, com apoio do Estado, quando possível;
• busca por familiares próximos, como avós, tios ou padrinhos;
• acolhimento familiar provisório, em que uma família voluntária recebe a criança temporariamente em casa;
• adoção, considerada quando não há possibilidade de retorno à família biológica ou à família extensa.

🔔 Em diversos países, estudos sobre os efeitos da institucionalização infantil levaram à conclusão de que abrigos devem ser apenas uma solução excepcional. A prioridade passou a ser garantir que crianças vivam em ambiente familiar, mesmo que de forma temporária.

No Brasil, existem programas de acolhimento familiar por período limitado, nos quais voluntários podem receber crianças ou adolescentes em suas casas por até dois anos. A proposta é evitar longas permanências em instituições e proporcionar um ambiente mais próximo da rotina de uma família.

Como funciona o acolhimento familiar

O serviço está previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e é executado pelos municípios. As famílias interessadas passam por um processo de cadastro, capacitação e acompanhamento de equipes técnicas formadas por assistentes sociais e psicólogos.

Durante o acolhimento, a criança ou o adolescente vive temporariamente com a família enquanto a Justiça busca uma solução definitiva, que pode ser:
• o retorno à família de origem;
• a reintegração a outros parentes, como avós ou tios;
• ou, quando nenhuma dessas alternativas é possível, o encaminhamento para adoção.

Nesse período, a família acolhedora recebe acompanhamento técnico e, em geral, um auxílio financeiro para ajudar nas despesas. Esse valor não é considerado salário nem pagamento pela criança. A tutela legal continua sendo do Estado.

A família acolhedora pode adotar?

Em regra, não. No Brasil, famílias que participam do acolhimento provisório não podem se habilitar para adotar a criança acolhida. Existem raríssimas exceções, analisadas individualmente pela Justiça.

Para alguns especialistas, essa regra pode representar um risco adicional de ruptura de vínculos. Segundo o neurocientista Charles Zeanah, impedir a possibilidade de conversão do acolhimento em adoção pode gerar novas separações para a criança.

“A adoção costuma ser vista como a solução mais estável e permanente para crianças que não poderão retornar à família biológica”, afirma.

Em estudos realizados na Romênia, onde algumas famílias acolhem crianças até a maioridade mesmo sem formalizar a adoção, pesquisadores observaram que aquelas que cresceram em ambientes familiares estáveis — seja por adoção ou acolhimento — apresentaram melhores resultados no desenvolvimento cognitivo do que aquelas que passaram por múltiplas rupturas de vínculos.

“Adotar não é fazer caridade”

Pessoas que vivem em abrigos já enfrentam as consequências do abandono ou da ausência de vínculos familiares. Por isso, especialistas ressaltam que é fundamental que os pretendentes à adoção estejam bem informados e preparados para compreender as necessidades da criança. Uma nova rejeição pode provocar danos ainda maiores.

Quem se sensibiliza com a situação de crianças e adolescentes com deficiência em instituições precisa entender que adotá-los não é um ato de caridade, mas uma forma de constituir família. Como explica ao g1 a defensora pública Renata Tybiriçá, “adoção é uma maneira de ter filhos”.

“A adoção é um compromisso permanente, e a criança é um sujeito de direitos, não um objeto que pode ser escolhido e descartado”, afirma.

Famílias que já passaram por essa experiência procuram compartilhar a realidade da adoção sem romantizar o processo — mostrando tanto os desafios quanto as conquistas de ampliar a família.

“Não dá para idealizar. Precisa ser uma decisão muito consciente, para evitar uma devolução depois. Meu filho Matheus, sinceramente, se não fosse pela adoção, talvez nem estivesse vivo hoje. Ele toma muitas medicações, tem epilepsia e lesão cerebral. Foram anos de terapias até ele conseguir engatinhar, andar e alcançar o desenvolvimento que tem hoje”, conta Suzana Schettini, moradora do Recife.

Suzana adotou o caçula sozinha aos 45 anos, após se divorciar do pai de seus outros dois filhos.

Para Matilde Luna, do Unicef, o processo precisa ser guiado pela transparência e pela compreensão real do que significa a parentalidade.

“As famílias precisam deixar de lado a ideia do ‘filho ideal’. Ao mesmo tempo, as crianças também precisam ser protegidas de expectativas irreais sobre o que é uma família. A adoção e a parentalidade são construções, processos longos e complexos — especialmente quando há uma deficiência envolvida”, afirma.

“Vai ser difícil, não dá para romantizar”

A história de Kelly, Júnior e o pequeno Davi Oliveira foi construída aos poucos. Davi é um dos irmãos de Diego, mencionado no início da reportagem. Assim como ele, o menino também tem autismo. A diferença é que, desde 2020, Davi não vive mais em abrigos: foi adotado pelo casal. Diego permanece em uma instituição, mas os irmãos continuam se encontrando em ocasiões especiais, como viagens, passeios, visitas e datas comemorativas. Kelly e Júnior gostam de promover esses encontros, embora reconheçam que não têm condições de adotar outra criança com TEA.

“Quando entramos na fila de adoção, antes da chegada do Davi, marcamos na ficha que aceitávamos irmãos, mas não deficiência. Só que quem digitou os dados acabou trocando as informações. Um dia me ligaram falando de uma menina com paralisia cerebral. Expliquei que não daria, porque tínhamos colocado ‘não’ para deficiência”, lembra Kelly.

Dois anos depois, ela recebeu outra ligação. Desta vez, perguntaram se o casal aceitaria uma criança com deficiência. “Eu disse que não e desliguei. Mas aquilo ficou na minha cabeça. Fiquei pensando: será que dessa vez era o meu filho me esperando?”

Kelly comentou o assunto com o marido, que inicialmente rejeitou a ideia. “Vai ser foguete, sai fora, não dá”, respondeu Júnior. No dia seguinte, porém, ele mudou de postura e pediu para conhecer o menino.

“Era uma criança muito agitada. Gritava, corria, não parava. Quando me viu, piscou para mim. Ele não falava, usava fralda, gostava de cavar a parede, jogava longe tudo o que davam para ele e arrancava fios dos lençóis. Naquele momento eu pensei: não dá”, conta Kelly.

Mas o pensamento mudou rapidamente. Duas semanas depois, o casal voltou ao abrigo. Júnior abraçou a esposa e disse: “Boneca, não tem jeito, ele é nosso filho”. Em seguida, olhou para o menino e completou: “Vem com o pai”.

Cinco anos depois, Davi vive com Kelly e Júnior em uma rotina que inclui escola pública, sessões de terapia, aulas de natação e muitas brincadeiras — especialmente na cama elástica que fica no quarto dele.

Quando chegou à família, o menino não falava e ainda usava fraldas. Hoje já consegue se comunicar, demonstra carinho e circula pela casa com a naturalidade de quem sempre fez parte daquele lar.

“A construção desse vínculo não acontece de uma vez. Ela vai sendo feita no dia a dia, no banho, nas brincadeiras e até nos momentos de cansaço”, diz Kelly.

Para Júnior, a presença de Davi transformou a família. “Nossa vida já era boa. Mas sem o Davi ela não estaria completa.”