Apesar do discurso público em defesa da criação de uma CPI para investigar o caso do Banco Master, a instalação da comissão enfrenta forte resistência nos bastidores do Congresso Nacional. Parlamentares de diferentes campos políticos avaliam que a investigação poderia atingir um número amplo de autoridades, empresários e lideranças partidárias, tornando o tema sensível para governo, oposição e Centrão.
Nos bastidores, a leitura é que a defesa da CPI tem servido mais como instrumento de pressão política e autoproteção do que como movimento efetivo para abrir uma investigação parlamentar. Um líder partidário resumiu a avaliação reservada de parte do Congresso: o discurso a favor da comissão fica mais fácil quando se considera improvável que ela saia do papel.
A resistência passa principalmente pela cúpula do Legislativo. O presidente do Senado e do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), e o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), não demonstraram disposição para avançar com os pedidos de comissão. A imprensa também aponta que aliados de Flávio Bolsonaro veem chances mínimas de instalação da CPI neste momento.
Caso Flávio Bolsonaro reacende pressão pela CPI
A pressão em torno da CPI ganhou novo fôlego após a divulgação de áudios e mensagens envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. Segundo reportagem do Intercept Brasil, Flávio teria cobrado repasses milionários para financiar o filme “Dark Horse”, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro.
Após a revelação, Flávio admitiu ter mantido contato com Vorcaro para tratar do financiamento do filme, mas negou ilegalidade e afirmou se tratar de patrocínio privado. A Agência Brasil registrou que o senador reconheceu a cobrança, mas negou crime.
A repercussão aumentou a pressão de parlamentares governistas e da oposição pela abertura da CPI. Deputados de diferentes partidos voltaram a defender uma investigação sobre a atuação do Banco Master e sobre as relações de Vorcaro com agentes públicos.
Comissão pode atingir vários campos políticos
O principal receio no Congresso é que uma CPI do Banco Master avance para além de Flávio Bolsonaro e alcance nomes de diferentes partidos. Parlamentares admitem, reservadamente, que uma investigação desse porte poderia expor conexões políticas, empresariais e financeiras envolvendo setores do Centrão, da oposição e até da base governista.
Por isso, embora governo e oposição usem o tema publicamente, a criação da comissão não interessa de forma ampla às cúpulas partidárias. Governistas veem potencial eleitoral na investigação caso consigam controlar a relatoria e a presidência da CPI. Já oposicionistas defendem a comissão como forma de tentar dividir o desgaste e apontar responsabilidades no governo federal.
Pedidos existem, mas instalação segue travada
Há pedidos de CPMI do Banco Master com assinaturas suficientes no Congresso, incluindo iniciativas atribuídas a Carlos Jordy (PL-RJ) e Heloísa Helena (Rede-RJ). Pelo regimento, um requerimento de CPMI que cumpra os requisitos precisa ser lido em sessão do Congresso para que a comissão avance.
Mesmo assim, Alcolumbre não leu o pedido na sessão em que foram votados vetos presidenciais, incluindo o veto à chamada Lei da Dosimetria. A decisão alimentou acusações de que teria havido acordo político para evitar a instalação da comissão, hipótese negada pelo presidente do Senado e por parlamentares da oposição. A Folha registrou que Flávio Bolsonaro também negou ter feito acordo para trocar a CPI pela votação da dosimetria.
Na Câmara, também há pedido de CPI protocolado, mas Hugo Motta não avançou com a criação do colegiado.
Disputa vira arma eleitoral
A CPI do Master se transformou em uma peça central da disputa política em ano eleitoral. Para a oposição, a comissão pode servir para tentar atingir o governo e expor falhas de fiscalização sobre o sistema financeiro. Para governistas, a investigação poderia aprofundar o desgaste de Flávio Bolsonaro e de aliados ligados ao Banco Master.
Mas, na prática, o cálculo predominante no Congresso é de risco. Como o caso envolve um banco acusado de fraudes bilionárias, empresários com forte trânsito político e possíveis conexões com diferentes partidos, muitos parlamentares temem que a CPI fuja do controle.
O senador Alessandro Vieira (MDB-SE) afirmou que segue sem despacho no STF um mandado de segurança que pede a instalação de uma CPI sobre o Banco Master no Senado. Já o líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP), acusou a oposição de fazer “teatro” e disse que pretende articular pessoalmente com Alcolumbre a abertura da CPMI.
CPI defendida no discurso, mas rejeitada nos bastidores
O cenário revela uma contradição política: publicamente, governo e oposição cobram investigação; reservadamente, poucos querem assumir o risco de uma CPI com potencial de atingir vários grupos ao mesmo tempo.
Com calendário apertado, proximidade do período eleitoral e resistência da cúpula do Congresso, a CPI do Banco Master segue travada. Por ora, a pressão cresce nos microfones, mas a instalação da comissão continua improvável nos bastidores de Brasília.





